A BESTA DOS MIL ANOS

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PRIMEIRO CAPÍTULO




A maior e a mais impressionante tapeçaria do mundo foi o tema da palestra do curador do Castelo de Angers, na 21a edição do Festival de Jornalismo, promovido anualmente pela prefeitura da histórica capital de Anjou, situada no Vale do Loire, na França, com seus majestosos castelos e deliciosos rosés.

— Meus amigos, tenho a honra de estar aqui, no Palácio das Artes, para lhes falar da grandiosa tapeçaria inspirada no último livro do Evangelho, ou melhor, no Apocalipse, segundo São João. Uma obra belíssima que transcende os valores feudais e a imaginação, e era somente exibida nas grandes ocasiões festivas da realeza para mostrar o poder e o luxo dos príncipes de Anjou. Também tenho orgulho de lhes falar do Castelo de Angers, essa inexpugnável fortaleza militar, construída por uma mulher guerreira, a regente Blanche de Castille. Atualmente, o castelo abriga a tapeçaria do Apocalipse e o Museu de Armas Medievais, que reúne a mais completa coleção de bestas de guerra da França, esta abençoada terra de François Villon, Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay...

A partir daí, inicia-se, na noite de 13 de outubro de 2006, uma longa viagem através do tempo feita pelo renomado historiador e curador Ferdinand Rochemont de Sailly, auxiliado pelo padre Antoine Duvert, ambos palestrantes no auditório do Palácio das Artes. Inicialmente, apresentou-se uma explanação sobre como se deu a anexação da província de Anjou ao reino da França, em 1204, e como a regente Blanche de Castille, que reinou de 1221 a 1244, mãe de dez filhos, mandou construir uma colossal fortaleza, com as dezessete torres, para resistir às ameaças e ambições do então rei da Inglaterra, Henrique III. O administrador teceu loas à beleza e sabedoria da regente, celebradas em versos e cantigas medievais, pois ela possuía a mesma autoridade e determinação soberana de Catarina II, da Rússia, conhecida como Catarina, a Grande.

Depois, o curador, de blazer e gravata borboleta, resgatou a tumultuosa vida de Luís I de Valois, duque de Anjou e Touraine, rei de Nápoles (Napoli), Itália, e conde de Provença (Provence), França, o segundo filho do rei João II, o Bom, e irmão de Carlos V, o Sábio, ambos reis da França, dinastia de Valois. Contou que durante o período de dominação inglesa e da Guerra dos Cem Anos, Luís I, mesmo residindo pouco tempo no Castelo de Angers, encomendou, em 1373, a famosa tapeçaria do Apocalipse aos ateliês parisienses de Nicolas Bataille, que levaram nove anos para concluí-la. Projetou então diversos textos e fotos para ilustrar a saga do nascimento e da destruição e ressurreição das cinzas da mais famosa tapeçaria medieval francesa. Não se intimidou em censurar o filho de Luís II, Renê, o último duque de Anjou a morar no castelo, também conhecido como Renato I de Anjou, duque de Lorena (Lorraine), França, e rei de Nápoles, o Bom Rei Renato (Le Bon Roi René), que doou a tapeçaria, em testamento, aos dignitários eclesiásticos da Catedral de Angers, dedicada a São Maurício, padroeiro da cidade.
— Foi um verdadeiro sacrilégio o que fizeram com a tapeçaria de haute lisse doada à catedral. Em consequência desse gesto impensado, ela foi retalhada e posta à venda.

Após o comentário, em tom emocionado, Ferdinand de Sailly explicou que, durante a Revolução Francesa, os objetos sacros foram destruídos. No caso da tapeçaria, algo extraordinário, aconteceu. Em vez de as peças desmembradas desaparecerem, elas foram milagrosamente reagrupadas e conservadas na Abadia de Saint-Serge.

O curador, percebendo que o padre Antoine não parava de se mexer na cadeira, demonstrando visível impaciência, autorizou-o, com um sinal de cabeça, a ler um documento, datado de 1806, que acabara de retirar de sua pasta e descrevia o estado deplorável da tapeçaria, jogada “num lugar úmido, onde se esburacava e se rompia ao simples contato das mãos”. Mas o padre não se deu por satisfeito com apenas a leitura e expressou também sua opinião sobre a vitalidade cromática da obra religiosa.
— É muito importante ressaltar que a tapeçaria conserva nos dias de hoje no lado do avesso, toda a força de suas cores originais: vermelhos quentes, azuis profundos, alaranjados dourados e verdes arrebatadores. Essas cores se mesclam nas esplendorosas imagens dos vinte e quatro anciões, nos quatro cavaleiros do Apocalipse, nos anjos trombeteiros da Anunciação, nos adoradores do Anticristo, nas bestas fantásticas de sete cabeças, nos eleitos, nos baldaquinos e nas igrejas góticas.

Tomando novamente a palavra, o curador ressalvou que nem sempre os resultados, sobretudo das mais recentes restaurações, foram bem-sucedidos, porque as modernas tinturas químicas, com o passar dos anos, se revelariam impróprias no restauro das obras de arte tecidas por magistrais artesãos medievais, que utilizavam tintas naturais, extraídas das plantas.

Ao término da conferência, seguiu-se uma saraivada de perguntas, algumas descabidas, como a primeira, de uma jovem, provocando risos no público:

— Gostaria de saber, senhor curador, se a regente Blanche passava a tropa em revista como fazia a rainha Catarina?

Foi esta a resposta do curador à pergunta capciosa:

— Mademoiselle, como as muralhas do castelo eram espessas, surdas e cegas aos amores de seus donos, não há nenhum registro sobre o que a regente Blanche, viúva de Luis VIII, morto em 1226, fazia da sua disponibilidade de tempo, após revistar a sua guarda de honra. Curiosamente, sua pergunta me faz lembrar o famoso episódio, contado pelo menestrel de Reims, em que um gesto extravagante dessa rainha serviu para silenciar as calúnias do bispo de Beauvais e de outros vassalos. A regente dirigiu-se ao Parlamento, onde tinha assento. Entrou, vestindo um longo casaco, e exigiu silêncio e atenção. Subiu numa mesa central e gritou para o bispo: “Olhem bem e vejam se estou grávida”, enquanto deixava cair o casaco até aos pés. Foi girando nua em todas as direções sob os olhares embevecidos da assistência, tudo para provar ser falsa a acusação de estar esperando outro filho. Todos se precipitaram até ela com respeito e admiração, cobriram-na com o casaco e a conduziram aos aposentos reais. Não se sabe até hoje se agiram assim por devoção à sua beleza ou à sua coragem.

— Poderia explicar o porquê da venda? - indagou uma senhora no fundo do auditório.

— O padre Antoine Duvert, que conhece bem essa fase nefasta da tapeçaria, vai responder à senhora.

— Bem, após a doação, em 1474, a tapeçaria ficava exposta na nave da catedral, no dia de São Maurício, no Natal, na Páscoa e no domingo de Pentecostes. Por mais que a considerassem “absolutamente magnífica”, os padres se queixavam do grande trabalho de suspendê-la na abóbada e dos gastos para conservá-la intacta. Reclamavam também porque ela abafava os cantos e tornava os sermões inaudíveis. Decidiram colocá-la à venda em 1783, às vésperas da Revolução. Ninguém quis comprá-la! Mas o pior estava por vir. Como sua conservação se tornou um estorvo, ela foi recortada e passou a ter as mais inusitadas utilidades. Serviu de proteção em estufas de produtos hortigranjeiros, de cortina, de pelego para selas e até de capacho. Foi uma afronta o que fizeram com essa grandiosa obra de arte sacra.

— Poderia nos dizer quando se iniciaram os trabalhos de restauração? — indagou uma jovem, comovida com a descrição.

— O cônego Louis-François Joubert, nomeado custódio da catedral, foi quem teve a idéia genial de criar um ateliê para restaurar a tapeçaria. Os trabalhos começaram no dia 1o de fevereiro de 1849 e continuam até hoje. Recuperaram-se as seis peças que contêm 14 quadros cada uma e mais as cenas com os “grandes personagens”. Ao todo, tem 103 metros de comprimento por quatro e meio de altura. Não há como não ficarmos impressionados com as quatro figuras gigantescas restauradas, no meio do dossel sustentado por colunas, em que somos convidados à contemplação e reflexão sobre as cenas bíblicas.

Os expositores foram submetidos a uma série de perguntas sobre as cenas desaparecidas.

— Bem, senhores — expôs o curador. — Eu tenho muita esperança de recuperar alguns quadros perdidos. É um sonho que acalento com fé religiosa. Conto com a ajuda dos alunos do Liceu Saint-Serge; lançamos um aviso internacional pela internet a todos os centros culturais, historiadores, diretores de museus, antiquários e pesquisadores de arte sacra e também às famosas casas de leilões, buscando localizar a obra. Esse excelente trabalho foi coordenado pelo nosso querido padre Antoine Duvert da Abadia e do Liceu Saint-Serge. Ele tem me ajudado a desfazer equívocos e desmanchar pistas fraudulentas, que sempre ocorrem em relação às obras de arte.
— Realmente, sou um fã incondicional da comunicação virtual — confirmou o padre Antoine, ainda irrequieto na desconfortável cadeira, após ser elogiado pelo curador. — Tenho desenvolvido um trabalho de rastreamento com um grupo de jovens alunos que praticam a informática no liceu. Os meninos têm me ajudado muito nas pesquisas pelo mundo inteiro.

— Obtiveram algum resultado? — perguntou um rapaz barbudo, com ar de estudante universitário e uma tatuagem no pescoço, que estava sentado na segunda fila.

— Infelizmente nada de positivo até agora. Há um boato que uma cena da tapeçaria possa estar na Polônia — ressalvou o curador. — A notícia está sendo analisada. Onde houver um indício usarei de todos os meios ao meu alcance para recuperar pelo menos um dos quadros perdidos. Não vou desistir.

Sem mais perguntas para responder, após passar a mão pela calvície frontal, o curador concluiu a palestra:

— Meus amigos, todos estão convidados a visitar o Castelo de Angers, um dos mais importantes museus do glorioso patrimônio histórico da França. Visitem o Museu de Armas e a tapeçaria reveladora do Apocalipse, que traz esperanças de um mundo sem miséria e violência quando descer do céu a Nova Jerusalém. Encantem-se com a beleza da maior tapeçaria do mundo, antes do início das obras de reforma da galeria para a instalação da nova iluminação, prevista para o início do verão.

Muito satisfeitos com os aplausos que se habituaram a compartilhar, os dois velhos amigos saíram sorridentes do prédio reformado na Praça Michel Debré, a poucos metros da prefeitura. Viram todas as luzes da fachada branca do Palácio das Artes acesas, tal como o prefeito exigira que ficasse durante o 21o Festival de Jornalismo. Queria que o maior evento sociocultural daquele ano de eleição municipal fosse intensamente iluminado pelas luzes do saber para uma platéia francesa sempre ávida de conhecer a grandeza de sua história.

— O que mais me impressiona no festival é a vontade dessa gente de respirar cultura — exaltou o padre Antoine, sorridente. — Isso é muito bom.

— Breve, serão recompensados. A galeria está ficando uma beleza! Resolvi reaproximar mais as telas e acabar com os enormes espaços vazios entre elas. Não haverá mais o impacto negativo causado pelas cenas que faltam. Deixei apenas um espaço vazio para o sonho não acabar.

— Deixou onde? — perguntou o padre Antoine, curioso.

— Vai descobrir, amigo, quando fizermos juntos a inspeção final para a reabertura da galeria — provocou o curador Ferdinand, sorrindo e estendo-lhe a mão em sinal de despedida.

— Vou aguardar. Pode deixar que vou descobrir tudo que anda escondendo de mim — disse o padre, como se, por trás do sorriso irônico do curador, desconfiasse de algo demoníaco que o misterioso vazio na parede quisesse ocultar.

O padre Antoine Duvert, de repente, silenciou e ficou com o semblante grave, aflito, de quem estava prestes a orar. Reconhecia como legítima e saudável a ambição do curador do castelo em recuperar pelo menos um dos sete quadros perdidos da sequência da Revelação Divina; em especial, a recuperação a qualquer preço da cena desconhecida do Diabo enjaulado por mil anos. Na verdade temia que esse quadro desaparecido significasse que o dragão de sete cabeças estivesse solto e fosse o grande responsável pela atual desordem no mundo. Onde estivesse, estaria semeando a discórdia, a aids incentivando o aborto e a clonagem humana, a pedofilia, instigando a violência, a ganância e a corrupção. Tudo indicava que os homens teriam perdido a batalha do bem contra o mal. Essa foi a visão aterrorizante que sua mente teve, pairando sob as imensas torres circulares do Castelo de Angers. Mais do que nunca acreditou ser fundamental, do ponto de vista religioso ou cultural, encontrar esse quadro perdido da tapeçaria do Apocalipse, cujas telas ilustravam as visões recebidas por São João, de Jesus Cristo, por intermédio de um anjo.

A busca do quadro da Besta deveria ser intensificada em qualquer ponto do mundo. Portanto, mãos à obra, senhor curador.


______________________________________



La Bête des Mille Ans
Chapitre 1

La plus grande et impressionnante tapisserie du monde fut le sujet de la conférence de l'Administrateur du Château d'Angers pendant la 21ème édition du Festival de Journalisme, promu annuellement par la mairie de l’ historique chef-lieu d'Anjou, situé dans la Vallée de la Loire, en France, avec ses majestueux châteaux et ses délicieux rosés.

— Mes amis, j'ai l'honneur d'être ici, au Palais des Arts, pour vous parler de la grandiose tapisserie inspirée du dernier livre de l'Évangile, plus précisément, de l'Apocalypse selon Saint Jean. Une œuvre splendide qui transcende les valeurs féodales et l'imagination et qui n’était exhibée que dans les grandes occasions festives de la royauté pour montrer le pouvoir et le luxe des princes d'Anjou. Je suis également fier de vous parler du Château d'Angers, cette inexpugnable forteresse militaire, qu’une femme guerrière, la régente Blanche de Castille a fait bâtir. De nos jours, le château abrite la tapisserie de l'Apocalypse et le Musée d'Armes médiévales, qui réunit la plus complète collection d'arbalètes de guerre de la France, ce bénit pays de François Villon, Pierre de Ronsard et Joachim du Bellay…

Dès lors, dans la nuit du 13 octobre 2006, commence un long voyage à travers le temps réalisé par le célèbre historien et administrateur Ferdinand Rochemont de Sailly, aidé par le prêtre Antoine Duvert, tous les deux conférenciers dans l'auditorium du Palais des Arts. Premièrement, on fit un exposé sur l’annexion de la province d'Anjou au royaume de France, en 1204, et sur la manière comment la régente Blanche de Castille, qui régna de 1221 à 1244, mère de dix enfants, ordonna la construction d’une colossale forteresse, avec ses dix-sept tours, pour résister aux menaces et aux ambitions du alors roi d’Angleterre, Henrique III. L’administrateur prôna la beauté et la sagesse de la régente, célébrées dans des vers et des chansons médiévales, car elle possédait la même autorité et détermination souveraine de Catherine II, de Russie, connue comme Catherine, la Grande.

Ensuite, l’administateur, en blazer et cravate papillon, racheta la tumultueuse vie de Louis Ier de Valois, duc d'Anjou et de Touraine, roi de Naples (Napoli), Italie, et comte de Provence, France, deuxième fils du roi Jean II, le Bon, le frère de Charles V, le Savant, tous les deux rois de France, appartenant à la dynastie des Valois. Il raconta que pendant la période de domination anglaise et de la Guerre des Cent Ans, Louis Ier, tout en habitant peu de temps dans le Château d'Angers, il commanda, en 1373, la célèbre tapisserie de l'Apocalypse aux ateliers parisiens de Nicolas Bataille, qui prirent neuf ans pour la conclure. Il projeta alors plusieurs textes et photos pour illustrer la saga de la naissance, de la destruction et résurrection des cendres de la plus célèbre tapisserie médiévale française. Sans se laisser intimider, il blâma le fils de Louis II, René, dernier duc d'Anjou qui vécut dans le château, aussi connu sous le nom de René Ier d'Anjou, duc de Lorraine, France, et roi de Naples, le Bon Roi René, qui fit donation par testament, de la tapisserie aux dignitaires ecclésiastiques de la Cathédrale d'Angers, dévouée à Saint Maurice, patron de la ville.

— C’est un véritable sacrilège ce qu’on a fait avec la tapisserie de haute lisse offerte à la cathédrale. En conséquence de ce geste irréfléchi, elle a été coupée en tranches et mise en vente.

Après le commentaire, d’un ton ému, Ferdinand de Sailly expliqua que, pendant la Révolution Française, des objets sacrés furent détruits. Concernant la tapisserie, quelque chose d’extraordinaire se produisit. Au lieu d’avoir disparues, ses pièces démembrées furent miraculeusement regroupées et conservées dans l'Abbaye de Saint-Serge.

L’administrateur, voyant que le prêtre Antoine ne s'arrêtait pas de bouger sur la chaise, ce qui démontrait une évidente impatience, l'autorisa, d’un signe de tête, à lire un document, daté de 1806, qu’il venait de sortir de son dossier et qui décrivait l'état déplorable de la tapisserie, oubliée “dans un endroit humide, où elle s’entassait de trous et se déchirait au simple contact des mains ”. Le prêtre, ne s’estimant pourtant pas satisfait de la lecture pure et simple, exprima aussi son avis sur la vitalité chromatique de l'œuvre religieuse.

— Il est très important de remarquer que la tapisserie conserve de nos jours, du côté de son envers, toute la force de ses couleurs originales: rouge chaud, bleu profond, orange doré et vert ravissant. Ces couleurs se mélangent dans les splendides images des vingt-quatre vieillards, des quatre chevaliers de l'Apocalypse, des anges trompettistes de l’Annonciation, des adorateurs de l'Antichrist, des bêtes fantastiques aux sept têtes, des élus, des baldaquins et des églises gothiques.

Prenant encore la parole, le conservateur excepta que les résultats, surtout ceux des plus récentes restaurations, ne furent pas tous couronnés de succès, car les modernes colorants chimiques, avec le passage des ans, se seraient révélés impropres à la restauration des œuvres d'art tissées par de magistraux artisans médiévaux qui utilisaient des encres naturelles, extraites des plantes.

Au bout de la conférence un tas de questions furent posées, quelques-unes impropres, comme la première, celle d'une jeune fille, qui provoqua des rires dans le public:

— J’aimerais bien savoir, M. l’administrateur, si la régente Blanche passait la troupe en revue comme faisait la reine Catherine?

Voilà la réponse du conservateur à la question captieuse:

— Mademoiselle, comme les parois du château étaient épaisses, sourdes et aveugles aux amours de leurs propriétaires, Il n’y a aucun registre sur ce que la régente Blanche, veuve de Louis VIII, mort en 1226, faisait de son temps libre, après avoir passé en revue sa garde d'honneur. Curieusement, votre question me fait rappeler du célèbre épisode, raconté par le ménestrel de Reims, quand un geste extravagant de cette reine a fait taire les calomnies de l'évêque de Beauvais et d'autres vassaux. La régente s’est rendue au Parlement, où elle avait siège. Elle est entrée portant un long manteau et exigeant le silence et l’attention de tous. Elle est montée sur une table centrale et a crié à l'évêque: “Regardez-moi bien et voyez si je suis enceinte” tant qu'elle laissait tomber son manteau jusqu'aux pieds. Nue, elle s’est tourné en toutes directions sous les regards extasiés de l'assistance, tout cela pour prouver la fausseté de l'accusation selon laquelle elle attendait un autre enfant. Tous se sont précipités sur elle avec respect et admiration, l’ont couverte avec le manteau et l’ont conduite à ses logements royaux. Jusqu'aujourd'hui on ne sait pas encore s’ils ont agi de cette façon par dévotion à sa beauté ou à son courage.

— Pourriez-vous expliquer la raison de la vente ? - demanda une dame au fond de l'auditorium.

— Le prêtre Antoine Duvert, qui connaît bien cette phase néfaste de la tapisserie, va vous répondre, madame.

— Bon, après la donation, en 1474, la tapisserie a été exposée dans la nef de la cathédrale le jour de Saint Maurice, à Noël, à Pâques et le dimanche de Pentecôte. Quoiqu'on la considèrent “absolument magnifique”, les prêtres se plaignaient d’une grande tâche, celle de la suspendre à la voûte, ainsi que des dépenses pour la conserver intacte. Ils se plaignaient aussi du fait qu'elle étouffait les chants et rendait les sermons inaudibles. Ils ont décidé de la mettre en vente en 1783, aux veilles de la Révolution. Personne ne voulait l’acheter ! Toutefois le pire s’annonçait. Comme sa conservation causait de la gêne, elle a été coupée en morceaux et on lui a réservé les utilités les plus inattendues. Elle a servi comme protection en étuves de jardins potagers, comme fourrure pour des selles, voire comme paillasson. C’est un affront ce qu’on a fait de cette grande œuvre d’art sacré.

— Pourriez-vous nous dire quand les travaux de restauration ont-ils commencé ? — demanda une jeune fille, émue par la description.

— C’est le chanoine Louis-François Joubert, nommé protecteur de la cathédrale, qui a eu l'idée géniale de créer un atelier pour restaurer la tapisserie. Les travaux ont commencé le premier février 1849 et continuent jusqu'à présent. On a récupéré les six pièces qui contiennent 14 tableaux chacune et encore les scènes avec les “grands personnages”. Au total, ce morceau a 103 mètres de long et quatre mètres et demi de haut. C’est impossible de ne pas s’étonner devant les quatre figures gigantesques restaurées, au milieu de l'auvent soutenu par des colonnes, où nous sommes invités à la contemplation et à la réflexion sur les scènes bibliques.

Les responsables de l’exposition furent soumis à une série de questions sur les scènes manquantes.

— Bon, messieurs — exposa l’administrateur. — J'ai la ferme espoir de récupérer quelques tableaux perdus. C'est un rêve que je nourris d’une foi religieuse. Je compte sur l'aide des élèves du Lycée Saint Serge; nous avons fait un appel international sur internet à tous les centres culturels, à des historiens, des directeurs de musées, des antiquaires, des chercheurs d'art sacré et aussi aux célèbres maisons d'enchères, dans le but de localiser l'œuvre. Cet excellent travail a été coordonné par notre cher prêtre Antoine Duvert de l'Abbaye et du Lycée Saint Serge. Il m’aide souvent à dissiper des équivoques et à démonter des pistes frauduleuses, qui ont toujours lieu lorsqu’il s’agit d’œuvres d'art.

— Je suis vraiment un admirateur inconditionnel de la communication virtuelle — confirma le prêtre Antoine, encore remuant sur sa chaise inconfortable, après les éloges de l’administrateur — Je mets en œuvre tout un travail de quête avec un groupe de jeunes élèves qui pratiquent l'informatique dans le lycée. Les garçons m'aident beaucoup dans les recherches aux quatre coins du monde.

— Vous avez obtenu quelque résultat ? — demanda un jeune homme barbu, tatoué sur le cou, peut-être un étudiant universitaire, qui était assis au deuxième rang.

— Malheureusement, il n’y a rien de positif jusqu'à présent. Il y a une rumeur selon laquelle une scène de la tapisserie pourrait être en Pologne — ajouta le conservateur. — La nouvelle est en train d’être analysée. S’il y a un indice, j'utiliserai tous les moyens à ma portée pour récupérer au moins l’un des tableaux perdus, où que ce soit. Je ne vais pas désister.

Comme il n’y avait plus de questions à répondre, après avoir passé la main sur sa calvitie frontale, l’administrateur conclut la conférence:

— Mes amis, vous êtes tous invités à visiter le Château d'Angers, l’un des plus importants musées du glorieux patrimoine historique de France. Visitez le Musée d'Armes et la tapisserie révélatrice de l'Apocalypse, qui apporte les espoirs d'un monde sans misère et violence quand descendra du ciel la Nouvelle Jérusalem. Enchantez-vous par la beauté de la plus grande tapisserie du monde, avant le début des travaux de réparation de la galerie pour l'installation d’un nouvel éclairage, prévu pour le début de l'été.

Très satisfaits des applaudissements qu’ils s’habituèrent à partager, les deux vieux amis sortirent souriants de l'immeuble renouvelé de la Place Michel Debré, à quelques pas de la mairie. Ils virent toutes les lumières de la façade blanche du Palais des Arts allumées, exactement comme le maire exigea pour le 21ème Festival de Journalisme. Il voulait que le plus grand événement socioculturel de cette année d'élection municipale fût intensément éclairé par la lumière du savoir au profit d’une audience française toujours avide de connaître la grandeur de son histoire.

— Ce qui m'impressionne le plus dans le festival c’est la volonté de ces gens de respirer de la culture — exalta le prêtre Antoine, souriant. — C’est très bon.

— Bientôt ils seront récompensés. La galerie se fait ravissante ! J'ai décidé d’approcher un peu plus les toiles et d’éliminer les énormes espaces vides entre elles. Il n’y aura plus l'impact négatif causé par les scènes qui manquent. Je n’ai laissé qu’un espace vide pour que le rêve ne s’efface point.

— Vous l’avez laissé où ? — demanda le prêtre Antoine, curieux.

— Vous le découvrirez, mon ami, quand nous ferons ensemble l’inspection finale pour la réouverture de la galerie — provoqua l’ administrateur Ferdinand, en souriant et en lui tendant la main en signe d'adieu.

— J’attendrai. Soyez sûr que je découvrirai tout ce qui vous me cachez — dit le prêtre, comme si, derrière le sourire ironique de l’administrateur, il se méfiait de quelque chose de démoniaque que le mystérieux vide sur le mur occultait.

Le prêtre Antoine Duvert, soudain, se tu et son visage devint grave, angoissé, comme ceux qui sont prêts à prier. Il considérait légitime et saine l'ambition de l'Administrateur du château de récupérer au moins l’un des sept tableaux perdus de la séquence de la Révélation Divine; en particulier, la récupération à n'importe quel prix de la scène inconnue du Diable mis à la cage pour mille ans. En réalité il craignait que ce tableau disparu signifiât que le dragon aux sept têtes était libéré et fût le grand responsable de l'actuel désordre dans le monde. Peu importe où il était, sans doute semait-il la discorde, le sida, stimulait-il l'avortement et le clonage humain, la pédophilie, incitait-il la violence, l'avidité et la corruption. Tout indiquait que les hommes avaient perdu la bataille du bien contre le mal. Voilà la vision terrifiante que son esprit eut, planant sur les immenses tours circulaires du Château d'Angers. Plus que jamais, Il trouvait fondamental, du point de vue religieux ou culturel, trouver ce tableau perdu de la tapisserie de l'Apocalypse, dont les toiles illustraient les visions reçues par Saint Jean, de Jésus-Christ, par l'intermédiaire d'un ange.

La quête du tableau de la Bête devrait s’intensifier dans n’importe quel point du monde. Alors, au travail, M. l’Administrateur.


(Le CHAPITRE PRÉMIER a été traduit par le Prof. Dr. Luiz Carlos Balga Rodrigues, Professor Adjunto de Letras Francesas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ))

0 comentários:

Dúvidas, críticas, sugestões? Poste aqui!