Entrevista 22/11/2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


“O Diabo tem uma transcendência maior do que algo religioso.”


Em entrevista a Christovam de Chevalier, Ilmar Penna Marinho Junior fala de seu novo romance, “A Besta dos Mil Anos”.


Como surgiu a ideia de escrever A Besta dos Mil Anos?

Já pretendia escrever um romance quando fui a Angers pela primeira vez, em 2007, e fiquei deslumbrado com o impacto visual da Tapeçaria do Apocalipse. Se não tinha um tema definido, a ideia de um novo livro começou a ganhar força ali. De volta ao Brasil, o thriller tomou força. Depois de escrever 120 páginas do que seria o livro, ganhei num concurso da Aliança Francesa uma viagem à Paris. De lá, estiquei até Angers, onde passei dois dias a convite do curador do castelo, que colocou à minha disposição toda a documentação de que precisasse. Uma manhã foi dedicada à historiadora Marie-Louise Triollet explicar uma a uma as cenas da tapeçaria. O fato confirmado de não haver nenhum vestígio sobre o paradeiro da cena 75, só meros relatos de como seria a representação da Besta Aprisionada por Mil Anos, foi fundamental para estabelecer o ponto de partida da história.

O livro trata de diferentes crenças religiosas e de correntes filosóficas. Você contou com algum tipo de suporte?
Tratar de diferentes religiões não foi algo previamente pensado, mas algo que foi acontecendo. Para tanto, tive suporte de diferentes tipos de estudiosos. No caso da astrologia, minha mulher foi de grande importância já que ela é astróloga e elaborou o mapa astral de Leonardo. Ao traçar um perfil de uma determinada personagem, eles me diziam se o que pretendia era algo factível ou não no desenvolvimento do enredo do livro.

Desde os autos de Gil Vicente, passando por Fausto, de Goethe, até o recente O Diabo veste Prada, o diabo é uma personagem que fascina escritores até hoje... Teve algum receio ao escolher tal personagem?
O Diabo me fascinou pelo mistério de ser essa figura clássica que traspassa o tempo representando o Mal. Maniqueísmos à parte, no romance, tudo o que existe de vil na contemporaneidade (crimes, vícios, violência, ganhos ilícitos etc) está vinculado a uma poderosa influência diabólica. E nada melhor do que a Besta do Apocalipse para representar esse mal.

Tal declaração está amparada num discurso católico então?
Não necessariamente. Deus é uma alma imortal em qualquer religião. O Diabo não é uma figura transcendental, mas a figura do mal. Refiro-me a coisas negativas. No Budismo de Nitiren Daishonin (religião abraçada por Ilmar), o diabo passa longe, na medida que cada indivíduo é o responsável por seu próprio destino. Tanto que o budista passa por dez estágios para alcançar a paz. E nenhum desses estágios tem a ver com algo diabólico. O Diabo tem uma transcendência maior do que algo religioso. Trata-se de algo maldito, como uma agressão à condição humana.

Já que falamos de mazelas, o narcotráfico era um tema do qual você já pretendia tratar no livro?
Já tinha explorado tal tema em meu romance anterior (O Quinto Poder). O narcotráfico não me é um tema desconhecido. Ao escolher tal assunto, é interessante ver como, às vezes, a realidade de nossos dias supera a ficção. Ao escrever, em meu livro anterior, que um submarino transportava drogas da Colômbia para o México não imaginava que pudesse tratar-se de algo verossímil, o que se provou algum tempo depois, quando tal fato foi noticiado pela imprensa mundial. Minha ideia foi trazer uma reflexão sobre a terrível violência do narcotráfico no Rio de Janeiro, uma cidade maravilhosa que perdeu a sua paz. Acho que consegui expressar no meu novo livro esse sentimento de indignação da população contra o crime organizado e a impunidade. Foi como uma premonição da chegada do Basta!

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